{"id":13429,"date":"2021-05-21T14:00:54","date_gmt":"2021-05-21T17:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/?p=13429"},"modified":"2021-05-21T09:06:42","modified_gmt":"2021-05-21T12:06:42","slug":"o-nivel-de-cognicao-delegado-de-policia-relativo-profundidade-de-analise-nas-deliberacoes-em-situacoes-flagranciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/meusitejuridico.com.br\/2021\/05\/21\/o-nivel-de-cognicao-delegado-de-policia-relativo-profundidade-de-analise-nas-deliberacoes-em-situacoes-flagranciais\/","title":{"rendered":"O n\u00edvel de cogni\u00e7\u00e3o do delegado de pol\u00edcia relativo \u00e0 profundidade de an\u00e1lise nas delibera\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es flagranciais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Aspectos de cogni\u00e7\u00e3o horizontal e cogni\u00e7\u00e3o vertical em sede de pris\u00e3o flagrancial,<\/em><\/strong><strong><em> em vista do \u2018standard\u2019\u00a0probat\u00f3rio e\/ou de elemento informativo na pris\u00e3o flagrancial<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Todo poder implica responsabilidade.\u00a0Nesse norte, o Delegado de Pol\u00edcia \u00e9 instado, na solu\u00e7\u00e3o de casos penais apresentados, a decidir sobre a autua\u00e7\u00e3o em flagrante delito de pessoas conduzidas, ordinariamente por agentes da autoridade policial. Referida fun\u00e7\u00e3o deliberativa sobre o direito ambulatorial \u00e9 de\u00a0 elevada complexidade t\u00e9cnico-jur\u00eddica e merecedora de recorte mais aprofundado.<\/p>\n<p>Diante da captura e condu\u00e7\u00e3o de suspeitos de delitos e fatos potencialmente flagranciais, compete ao Delegado de Pol\u00edcia, com reduzido tempo, e se valendo, n\u00e3o raras vezes, de apenas a vers\u00e3o informal dos protagonistas \u2013 policiais, v\u00edtimas e conduzidos \u2013 deliberar se adotar\u00e1 a restri\u00e7\u00e3o da liberdade (decretando a pris\u00e3o em flagrante), ou mesmo elaborando uma portaria para delinear quais dilig\u00eancias complementares devem ser tomadas para a solu\u00e7\u00e3o e apura\u00e7\u00e3o da verdade ating\u00edvel, com seu vindouro esgotamento.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, vem \u00e0 balha, se a d\u00favida surgida na interpreta\u00e7\u00e3o do fato apresentado e seus nuances (ap\u00f3s exaurimento de todos os recursos informativos dispon\u00edveis) tem o cond\u00e3o de impedir a autua\u00e7\u00e3o em flagrante (com a imediata devolu\u00e7\u00e3o da ef\u00eamera priva\u00e7\u00e3o de liberdade gerada pela captura) ou lavrar a pe\u00e7a coercitiva, submetendo-o ao posterior crivo judicial.<\/p>\n<p><strong>Do exame sobre a pris\u00e3o flagrancial<\/strong><\/p>\n<p>Neste p\u00f3rtico, o art. 301, do CPP pontua que \u201cqualquer do povo poder\u00e1 e as autoridades policiais e seus agentes dever\u00e3o prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito\u201d.<\/p>\n<p>Dando sequ\u00eancia, o art. 302, do CPP elenca as hip\u00f3teses de pris\u00f5es flagranciais:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">CAP\u00cdTULO II<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">DA PRIS\u00c3O EM FLAGRANTE<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Art.\u00a0301.\u00a0\u00a0Qualquer do povo poder\u00e1 e as autoridades policiais e seus agentes dever\u00e3o prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Art.\u00a0302.\u00a0\u00a0Considera-se em flagrante delito quem:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">I\u00a0&#8211;\u00a0est\u00e1 cometendo a infra\u00e7\u00e3o penal;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">II\u00a0&#8211;\u00a0acaba de comet\u00ea-la;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">III\u00a0&#8211;\u00a0\u00e9 perseguido, logo ap\u00f3s, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situa\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a presumir ser autor da infra\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">IV\u00a0&#8211;\u00a0\u00e9 encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou pap\u00e9is que fa\u00e7am presumir ser ele autor da infra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Superadas as hip\u00f3teses de flagrantes existentes que devem ser avaliadas e levada em conta para fins de aferir o<strong> n\u00edvel de cogni\u00e7\u00e3o do delegado de pol\u00edcia relativo \u00e0 profundidade de an\u00e1lise nas delibera\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es flagranciais<\/strong>, compete ainda avan\u00e7armos sobre o art. 304 do CPP.<\/p>\n<p>Com isto, o art. 304 do C\u00f3digo de Processo Penal parametriza parcela protocolar da pris\u00e3o flagrancial, noticiando que \u201capresentado o preso \u00e0 autoridade competente, ouvir\u00e1 esta o condutor e colher\u00e1, desde logo, sua assinatura, entregando a este c\u00f3pia do termo e recibo de entrega do preso\u201d. Ademais, o dispositivo, em sua reda\u00e7\u00e3o alude que \u201cem seguida, proceder\u00e1 \u00e0 oitiva das testemunhas que o acompanharem e ao interrogat\u00f3rio do acusado sobre a imputa\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 feita, colhendo, ap\u00f3s cada oitiva suas respectivas assinaturas, lavrando, a autoridade, afinal, o auto\u201d.<\/p>\n<p>Da\u00ed adv\u00e9m a primeira problem\u00e1tica. Nestas circunst\u00e2ncias, em havendo a d\u00favida pelo delegado de pol\u00edcia em sua delibera\u00e7\u00e3o, esta deve militar em favor da sociedade ou do conduzido no momento da an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o flagrancial?<\/p>\n<p>A pauta n\u00e3o \u00e9 lateral. \u00c9 central no cotidiano das Autoridades Policiais, conquanto haja car\u00eancia de maiores esclarecimentos doutrin\u00e1rios e jurisprudenciais.<\/p>\n<p>\u00c0 luz do disposto no artigo 304\u00a71\u00ba do CPP, ou seja, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do preso \u00e0 autoridade e, lavrado o auto, deve verificar a fundada suspeita contra o conduzido em virtude das respostas dadas, para recolh\u00ea-lo \u00e0 pris\u00e3o ou fixar a fian\u00e7a criminal.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 fundada suspeita?<\/p>\n<p>O art. 244, do C\u00f3digo de Processo Penal reza que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201cA busca pessoal independer\u00e1 de mandado, no caso de pris\u00e3o ou quando <strong>houver fundada suspeita<\/strong> de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou pap\u00e9is que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar\u201d.<\/p>\n<p>MARCELO DE LIMA LESSA assim pontua:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201cmera suspeita \u00e9 o \u201ctalvez seja\u201d. Suspeita \u00e9 o que \u201cparece ser\u201d. Ambas s\u00e3o fr\u00e1geis e indicam suposi\u00e7\u00f5es ou simples desconfian\u00e7as. De outra banda, a fundada suspeita (exigida pela nossa lei) \u00e9 o \u201ctudo leva a crer\u201d (&#8230;)baseia-se em elementos concretos e seguros, id\u00f4neos, n\u00e3o se confundindo sequer em tese, com a simples suspei\u00e7\u00e3o (parece ser, acredito que seja, acho que seja etc). (A Independ\u00eancia Funcional do Delegado Paulista, 1\u00aa ed. Acadpesp, 2012, p. 12).<\/p>\n<p>GUILHERME DE SOUZA NUCCI procurando definir a fundada suspeita menciona que \u00e9 um:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201c[\u2026] requisito essencial e indispens\u00e1vel para a realiza\u00e7\u00e3o da busca pessoal, consistente na revista do indiv\u00edduo. Suspeita \u00e9 uma desconfian\u00e7a ou suposi\u00e7\u00e3o, algo intuitivo e fr\u00e1gil, por natureza, raz\u00e3o pela qual a norma exige fundada suspeita, que \u00e9 mais concreto e seguro. Assim, quando um policial desconfiar de algu\u00e9m, n\u00e3o poder\u00e1 valer-se, unicamente, de sua experi\u00eancia ou pressentimento, necessitando, ainda, de algo mais palp\u00e1vel, como a den\u00fancia feita por terceiro de que a pessoa porta o instrumento usado para o cometimento do delito, bem como pode ele mesmo visualizar uma sali\u00eancia sob a blusa do sujeito, dando n\u00edtida impress\u00e3o de se tratar de um rev\u00f3lver. Enfim, torna-se imposs\u00edvel e impr\u00f3prio enumerar todas as possibilidades autorizadoras de uma busca, mas continua sendo curial destacar que a autoridade encarregada da investiga\u00e7\u00e3o ou seus agentes podem \u2013 e devem \u2013 revistar pessoas em busca de armas, instrumentos do crime, objetos necess\u00e1rios \u00e0 prova do crime, objetos necess\u00e1rios \u00e0 prova do fato delituoso, elementos de convic\u00e7\u00e3o, entre outros, agindo escrupulosa e fundamentadamente\u201d. (grifo do autor) (NUCCI, 2008, p. 501)\u201d.<\/p>\n<p>AURY LOPES JUNIOR defende n\u00e3o ser poss\u00edvel criar uma defini\u00e7\u00e3o exata de defini\u00e7\u00e3o sobre fundada suspeita abordando que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201cMas o que \u00e9 \u201cfundada suspeita\u201d? Uma cl\u00e1usula gen\u00e9rica, de conte\u00fado vago, impreciso e indeterminado, que remete \u00e0 ampla e plena subjetividade (e arbitrariedade) do policial. [\u2026] Trata-se de um ran\u00e7o autorit\u00e1rio de um C\u00f3digo de 1941. Assim, por mais que se tente definir a \u201cfundada suspeita\u201d, nada mais se faz que pura ila\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, pois os policiais continuar\u00e3o abordando quem e quando eles quiserem. (LOPES JUNIOR, 2014, p. 739)\u201d.<\/p>\n<p>A terminologia \u201cfundada\u201d elencada no C\u00f3digo de Processo Penal, n\u00e3o est\u00e1 ali por qualquer motivo. O agente policial n\u00e3o pode abordar apenas porque suspeitou de algu\u00e9m subjetivamente. Esta suspei\u00e7\u00e3o derivada deve ser fundada, ou seja, deve haver uma percep\u00e7\u00e3o do policial lastreada em crit\u00e9rios objetivos, de que a pessoa sobre a qual recai a suspeita esteja de posse dos elementos elencados no artigo 240 do C\u00f3digo de Processo Penal, j\u00e1 mencionados alhures.<\/p>\n<p>O Supremo Tribunal Federal, sobre a pauta no Recurso em Sentido Estrito n\u00ba 81.305-4 (BRASIL, 2001), j\u00e1 decidiu no sentido de exigir elementos concretos na forma\u00e7\u00e3o da fundada suspeita, como se segue:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em>\u201cEMENTA: HABEAS CORPUS. TERMO CIRCUNSTANCIADO DE OCORR\u00caNCIA LAVRADO CONTRA O PACIENTE. RECUSA A SER SUBMETIDO A BUSCA PESSOAL. JUSTA CAUSA PARA A A\u00c7\u00c3O PENAL RECONHECIDA POR TURMA RECURSAL DE JUIZADO ESPECIAL. Compet\u00eancia do STF para o feito j\u00e1 reconhecida por esta Turma no HC n.\u00ba 78.317. Termo que, sob pena de excesso de formalismo, n\u00e3o se pode ter por nulo por n\u00e3o registrar as declara\u00e7\u00f5es do paciente, nem conter sua assinatura, requisitos n\u00e3o exigidos em lei.\u00a0<strong>A &#8220;fundada suspeita&#8221;, prevista no art.\u00a0244\u00a0do CPP, n\u00e3o pode fundar-se em par\u00e2metros unicamente subjetivos, exigindo elementos concretos que indiquem a necessidade da revista, em face do constrangimento que causa.<\/strong>\u00a0Aus\u00eancia, no caso, de elementos dessa natureza, que n\u00e3o se pode ter por configurados na alega\u00e7\u00e3o de que trajava, o paciente, um &#8220;blus\u00e3o&#8221; suscet\u00edvel de esconder uma arma, sob risco de referendo a condutas arbitr\u00e1rias ofensivas a direitos e garantias individuais e caracterizadoras de abuso de poder. Habeas corpus deferido para determinar-se o arquivamento do Termo. (grifo nosso)\u201d<\/em><\/p>\n<p>A doutrina tradicional assevera que, ao receber o preso e as not\u00edcias a respeito do fato tido como delituoso, a autoridade policial dever\u00e1 analisar estes e os elementos que colheu, com muita cautela, a fim de verificar se \u00e9 hip\u00f3tese de lavrar auto de pris\u00e3o em flagrante. A pris\u00e3o n\u00e3o implica, necessariamente, a lavratura do auto, podendo a autoridade policial, por n\u00e3o estar convencida da exist\u00eancia da infra\u00e7\u00e3o penal ou por entender que n\u00e3o houve situa\u00e7\u00e3o de flagr\u00e2ncia, conforme a hip\u00f3tese, dispensar a lavratura do auto, determinar a instaura\u00e7\u00e3o de inqu\u00e9rito policial para apurar o fato ou apenas registrar boletim de ocorr\u00eancia (doutrina de J\u00falio Fabbrini Mirabete, extra\u00edda da obra C\u00f3digo de Processo Penal interpretado, 8\u00aa Ed., S\u00e3o Paulo, 2001). Neste mesmo \u00f3culo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201ca decis\u00e3o sobre a lavratura do auto de pris\u00e3o em flagrante \u00e9 de exclusividade da autoridade policial. Vale dizer, que se a autoridade, ap\u00f3s uma an\u00e1lise dos elementos existentes contra o conduzido, entender que a captura n\u00e3o se deu em estado de flagr\u00e2ncia ou que o fato \u00e9 penalmente at\u00edpico ou, tamb\u00e9m, que inexistem fundadas suspeitas contra o preso, n\u00e3o ser\u00e1 confirmada a pris\u00e3o, e, consequentemente, ser\u00e1 o preso colocado em liberdade. N\u00e3o pode, outrossim, nessa ordem de ideias, ser a autoridade obrigada a lavrar o auto de pris\u00e3o em flagrante por quem quer que seja\u201d (DEMERCIAN, Pedro Henrique; MALULYM Jorge Assaf, Curso de Processo Penal, 5\u00aa ed. S\u00e3o Paulo, Forense, 2009, p. 190).<\/p>\n<p>A esse prop\u00f3sito, caminha firme a jurisprud\u00eancia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201ccompete privativamente ao Delegado de Pol\u00edcia discernir, entre todas as vers\u00f5es que lhe forem oferecidas por testemunhas ou envolvidos em ocorr\u00eancias em conflito, qual a mais veross\u00edmil e ent\u00e3o decidir contra quem adotar as provid\u00eancias de instaura\u00e7\u00e3o de inqu\u00e9rito ou autua\u00e7\u00e3o em flagrante\u201d (TACRIM, Rel. Carvalho Neto, JUTACRIM 91\/920). \u201ca determina\u00e7\u00e3o da lavratura do auto de pris\u00e3o em flagrante pelo delegado de pol\u00edcia n\u00e3o se constitui em ato autom\u00e1tico, a ser praticado diante de simples not\u00edcia de infra\u00e7\u00e3o penal, visto que no sistema processual vigente tem o poder de decidir sobre a oportunidade ou n\u00e3o daquela pe\u00e7a (RT 679\/351);\u00a0 \u201ca autoridade policial goza de poder discricion\u00e1rio ao avaliar se efetivamente est\u00e1 diante de not\u00edcia procedente, ainda que em tese e que avaliados perfunctoriamente os dados de que disp\u00f5e, n\u00e3o operando como mero agente de protocolo, que ordena sem avalia\u00e7\u00e3o alguma, flagrantes ou boletins de ocorr\u00eancia indiscriminadamente\u201d (RJTACrim, 39\/341).<\/p>\n<p>No entanto, se diante da audi\u00e7\u00e3o de todos os envolvidos, ainda persistir d\u00favida da autoridade policial, n\u00e3o elidindo a pr\u00e1tica do delito, tampouco o confirmando, qual a postura a ser adotada pelo Delegado de Pol\u00edcia?<\/p>\n<p>Apresentaremos algumas situa\u00e7\u00f5es exemplificativas para melhor compreens\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li>Exemplo 1- Um homem \u00e9 apresentado pela Pol\u00edcia Militar como indigitado autor de crime de furto de um televisor,\u00a0 momentos ap\u00f3s os fatos; todavia, n\u00e3o \u00e9 surpreendido com o objeto material, conquanto a v\u00edtima afirme, de forma segura, ser ele o autor, mesmo tendo bi\u00f3tipo comum e os fatos ocorridos no per\u00edodo noturno, com menor condi\u00e7\u00e3o de visibilidade. O conduzido nega os fatos, sem comprova\u00e7\u00e3o de \u00e1libi naquele momento.<\/li>\n<li>Exemplo 2- Durante abordagem veicular rotineira, policiais abordam seus\u00a0 quatro ocupantes.No seu interior, no banco traseiro, havia 30 inv\u00f3lucros de coca\u00edna que poderiam ter sido dispensados por qualquer um deles, tendo todos negado a propriedade da droga.<\/li>\n<li>Exemplo 3- Motociclista abordado com ve\u00edculo com placas trocadas e chassi adulterado, sem confessar a autoria dos falsos constatados.<\/li>\n<\/ul>\n<p>As tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es apresentadas fomentam d\u00favidas: teria a v\u00edtima se enganado, mesmo que de boa-f\u00e9 (falsa mem\u00f3ria)? Seria justo autuar em flagrante um caronista que nada tem rela\u00e7\u00e3o com drogas apreendidas? Como afirmar que um sitiante r\u00fastico que tem uma motocicleta baixada pelo DETRAN (sucata) apenas para trafegar na zona rural tinha ci\u00eancia do il\u00edcito de seu comportamento?<\/p>\n<p>Para responder com saciedade, devem ser sopesados alguns pontos.<\/p>\n<p>O primeiro ponto a ser observado \u00e9 o crit\u00e9rio de julgamento ou n\u00edvel de cogni\u00e7\u00e3o a ser enfrentado pelo Delegado de Pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>Dos n\u00edveis de cogni\u00e7\u00e3o horizontal e vertical em pris\u00e3o flagrancial<\/strong><\/p>\n<p>Kazuo Watanabe leciona que a cogni\u00e7\u00e3o \u00e9 prevalentemente um ato de intelig\u00eancia, consistente em considerar, analisar e valorar as alega\u00e7\u00f5es e as provas produzidas pelas partes , vale dizer, as quest\u00f5es de fato e as de direito que s\u00e3o deduzidas no processo e cujo resultado \u00e9 o alicerce, o fundamento do judicium do julgamento do objeto litigioso do processo (Da cogni\u00e7\u00e3o no processo civil, ed. Revista dos Tribunais, 1987, p.41).<\/p>\n<p>A cogni\u00e7\u00e3o pode ser vertical ou horizontal:\u00a0 no primeiro caso (cogni\u00e7\u00e3o vertical) versar\u00e1 sobre o grau de profundidade da an\u00e1lise da mat\u00e9ria probat\u00f3ria e de elementos informativos postas em sede flagrancial; ser\u00e1 horizontal (cogni\u00e7\u00e3o horizontal) quando se referir \u00e0s mat\u00e9rias legais, constitucionais, convencionais e de crit\u00e9rios axiol\u00f3gicos de justi\u00e7a que poder\u00e3o ser valoradas na decis\u00e3o em sede flagrancial.<\/p>\n<p>Defendemos que do ponto de vista de cogni\u00e7\u00e3o horizontal, compete ao Delegado de Pol\u00edcia a an\u00e1lise de todos os substratos do conceito de crime (tipicidade, ilicitude e culpabilidade), com todos os efeitos correlatos (erro de tipo, crime imposs\u00edvel, erro de proibi\u00e7\u00e3o etc). Mas isso \u00e9 objeto de an\u00e1lise peculiar, que foge aos objetivos deste trabalho.<\/p>\n<p>Interessa-nos, nesses apontamentos, o aspecto vertical da cogni\u00e7\u00e3o para, enfim, sanar os consect\u00e1rios da manuten\u00e7\u00e3o da d\u00favida quando ainda presente mesmo que esgotadas todas as oitivas e objetos apresentados no momento do ato decis\u00f3rio da suposta situa\u00e7\u00e3o flagrancial.<\/p>\n<p>Advogamos que o n\u00edvel de cogni\u00e7\u00e3o a ser al\u00e7ado pelo Delegado de Pol\u00edcia neste momento n\u00e3o \u00e9 exauriente e sim de cogni\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. Ou seja, n\u00e3o deve o Delegado de Pol\u00edcia, neste \u00e1timo, debru\u00e7ar-se de forma muito acurada na an\u00e1lise do enredo apresentado e elementos informativos correlatos a ponto de exigir-se um ju\u00edzo de certeza.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>standard\u00a0<\/em>probat\u00f3rio e\/ou de elemento informativo nessa etapa tem patamar vinculado \u00e0 finalidade informativa, isto \u00e9, a fun\u00e7\u00e3o \u00e9 proporcionar decis\u00e3o jur\u00eddica ancorada num ju\u00edzo de alta probabilidade (mais que simples possibilidade e menor que ju\u00edzo de certeza). O acertamento do caso penal, nesta etapa preambular finca-se nessa baliza.<\/p>\n<p>Em outras palavras, compete ao Delegado de Pol\u00edcia, neste caso, n\u00e3o um ju\u00edzo de inevit\u00e1vel certeza, mas de alta probabilidade (elementos carreados todos no mesmo sentido) de que houve a pr\u00e1tica de fato t\u00edpico, il\u00edcito e culp\u00e1vel n\u00e3o afetado por causa extintiva de punibilidade.<\/p>\n<p>O delegado de pol\u00edcia catarinense, Leonardo Marcondes Machado, sobre <em>standard\u00a0<\/em>probat\u00f3rio e\/ou de elemento informativo na pris\u00e3o flagrancial invoca que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201cEm que pese a enorme dificuldade, inclusive metodol\u00f3gica, na constru\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>standards<\/em>\u00a0probat\u00f3rios (ou informativos) racionais e operativos, esse \u00e9 um desafio que deve ser enfrentado pela dogm\u00e1tica processual penal brasileira nos projetos de reforma da justi\u00e7a criminal. Particularmente, por uma teoria cr\u00edtica, que busque n\u00e3o apenas denunciar abusos, mas criar caminhos poss\u00edveis \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do autoritarismo crescente nas diversas inst\u00e2ncias do sistema penal.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">A supera\u00e7\u00e3o desse v\u00e1cuo legislativo, que n\u00e3o \u00e9 exclusividade nacional,\u00a0no sentido de prever regras com diferentes graus de sufici\u00eancia probat\u00f3ria (ou informativa) para cada tipo de decis\u00e3o tomada ao longo da persecu\u00e7\u00e3o penal,\u00a0demanda, no entanto, uma epistemologia garantista\u00a0exigente, fundada na presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia,\u00a0como estrat\u00e9gia pol\u00edtico-criminal de redu\u00e7\u00e3o de danos (ou melhor: de dores).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Assim, no caso espec\u00edfico do procedimento flagrancial, a supera\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de indetermina\u00e7\u00e3o normativa e arbitrariedade concreta decorrente do sistema de \u201cfundada suspeita\u201d, figura como importante mecanismo para a diminui\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7as criminais, especialmente a pris\u00e3o indevida de pessoas inocentes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Muito embora n\u00e3o seja poss\u00edvel abolir por completo a seletividade estrutural dos processos de criminaliza\u00e7\u00e3o, o estabelecimento de um\u00a0<em>standard<\/em>\u00a0objetivo e elevado para a comprova\u00e7\u00e3o da proposi\u00e7\u00e3o f\u00e1tica atinente \u00e0 pris\u00e3o em flagrante, compat\u00edvel com os gravosos efeitos (ou consequ\u00eancias) dessa tomada de decis\u00e3o pela autoridade policial, serviria \u00e0 mitiga\u00e7\u00e3o dos abusos penais com maior tutela das garantias individuais\u201d (MARCONDES, 2020, p. 1).<\/p>\n<p><strong>Dos aspectos de d\u00favidas na pris\u00e3o flagrancial<\/strong><\/p>\n<p>FERNANDO CAPEZ ensina que:<\/p>\n<p>\u201cnesta fase vigora o princ\u00edpio \u2018in d\u00fabio pro societate\u2019, n\u00e3o podendo o delegado de pol\u00edcia embrenhar-se em quest\u00f5es doutrin\u00e1rias de alta indaga\u00e7\u00e3o, sob pena de antecipar indevidamente a fase judicial de apresenta\u00e7\u00e3o de provas; permanecendo a d\u00favida ou diante de fatos aparentemente criminosos, dever\u00e1 ser formalizada a pris\u00e3o em flagrante\u201d (Curso de Processo Penal, 24\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Saraiva, 2017, pag 328).<\/p>\n<p>Noutro v\u00e9rtice, parca jurisprud\u00eancia a respeito, parece caminhar em sentido oposto:<\/p>\n<p>\u201cAutua\u00e7\u00e3o em flagrante pressup\u00f5e certeza absoluta da materialidade e autoria e a m\u00ednima d\u00favida desautoriza a lavratura do respectivo auto (RT 728\/541)\u201d.<\/p>\n<p>Diante do conflito de ideias, defendemos uma tese intermedi\u00e1ria, sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n<ul>\n<li>A d\u00favida deve ser valorada sob dois aspectos: s\u00e9ria e fundada (militando em favor do conduzido) ou simplesmente apresentada como mera tese &#8211; possibilidade de menor probabilidade de ocorr\u00eancia &#8211;\u00a0 (inclinando-se em favor da sociedade).<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Se a d\u00favida for s\u00e9ria e fundada, a melhor postura seria a n\u00e3o decreta\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o em flagrante, mediante elabora\u00e7\u00e3o de portaria inaugural, delineando a rota investigat\u00f3ria com as dilig\u00eancias a serem futuramente observadas.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Se a d\u00favida representar apenas uma tese defensiva de pouca probabilidade \u00e0 luz das circunst\u00e2ncias f\u00e1ticas, de bom alvitre a decreta\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o em flagrante delito.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Destarte, a depender da sua classifica\u00e7\u00e3o, a postura da autoridade policial deve ser diversa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma regra matem\u00e1tica, tampouco artif\u00edcio apto a\u00a0 escapar de uma an\u00e1lise casu\u00edstica, tendo sempre como premissa as informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o proporcionadas no momento da apresenta\u00e7\u00e3o do caso.<\/p>\n<p>A apura\u00e7\u00e3o do fato aparentemente criminoso por meio de portaria n\u00e3o desnatura a reta apura\u00e7\u00e3o do fato, desde que dilig\u00eancias complementares e poss\u00edveis sejam aptas a melhor delinear os fatos e proporcionar ao Delegado uma vis\u00e3o mais segura, ampla e adequada.<\/p>\n<p>Os exemplos apresentados acima l\u00e1 atr\u00e1s proporcionam materializar as seguintes proposi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Exemplo 1: caso o conduzido, sem antecedentes criminais, alegue \u00e1libi e apresenta fontes de prova a serem disponibilizadas em momento posterior (como checagem de filmagens, audi\u00e7\u00e3o de testemunha n\u00e3o presente ao plant\u00e3o) \u00e9 decis\u00e3o razo\u00e1vel a apura\u00e7\u00e3o do fato mediante portaria.<\/li>\n<li>Exemplo 2: se todos negam os fatos e apresentam vers\u00f5es conflitantes, sendo todos n\u00e3o moradores no munic\u00edpio onde ocorreu a abordagem, a solu\u00e7\u00e3o mais prudente seria a autua\u00e7\u00e3o de todos, pois transportavam o objeto material.<\/li>\n<li>Exemplo 3: se o abordado, com p\u00e9ssima biografia criminal e comerciante de carros, com bom n\u00edvel de esclarecimento intelectual, nega a adultera\u00e7\u00e3o dos caracteres do ve\u00edculo, mas alega n\u00e3o possuir documenta\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo e adquiriu de desconhecidos, reputamos a atitude mais prudente a autua\u00e7\u00e3o em flagrante pelo crime de recepta\u00e7\u00e3o dolosa pr\u00f3pria (pois conduzia coisa produto do crime de adultera\u00e7\u00e3o de sinal identificador de ve\u00edculo automotor).<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>DAS CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n<p>Ante o exposto, estabelecer, de modo aprior\u00edstico, o papel da d\u00favida no momento decisional da Autoridade Policial \u00e9 manietar seu poder na interpreta\u00e7\u00e3o do fato e da norma. Enfraquece seu perfil valorativo. \u00c9 dizer: ao conferir a atribui\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise casu\u00edstica para melhor delinear os fatos, especificando a natureza e grau de d\u00favida haurida de sua avalia\u00e7\u00e3o, confere uma decis\u00e3o mais justa e homenageia a forma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica da carreira de Delegado de Pol\u00edcia. Por isto, o n\u00edvel de cogni\u00e7\u00e3o horizontal e vertical deve ser levado em conta, al\u00e9m de outras abordagens quanto \u00e0s d\u00favidas e aplica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios do \u201cin dubio societate\u201d ou do \u201cin dubio pro reo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal, 24\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Saraiva, 2017.<\/p>\n<p>DEMERCIAN, Pedro Henrique; MALULYM Jorge Assaf, Curso de Processo Penal, 5\u00aa ed. S\u00e3o Paulo, Forense, 2009.<\/p>\n<p>MACHADO, Leonardo Marcondes. Standard informativo da pris\u00e3o em flagrante. Dispon\u00edvel em:&lt;&lt;https:\/\/www.conjur.com.br\/2020-jul-28\/academia-policia-standard-informativo-prisao-flagrante&gt;&gt;. 28 de julho de 2020.<\/p>\n<p>LOPES JUNIOR, A.\u00a0Direito Processual Penal\u00a0\u2013 11. ed. \u2013 S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2014.<\/p>\n<p>NUCCI, G. de S.\u00a0Manual de processo penal e execu\u00e7\u00e3o penal. 4\u00ba. ed. ver., atual. e ampl. S\u00e3o Paulo: Revista dos Tribunais, 2008.<\/p>\n<p>WATANABE, Kazuo. Da cogni\u00e7\u00e3o no processo civil, ed. Revista dos Tribunais, 1987.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aspectos de cogni\u00e7\u00e3o horizontal e cogni\u00e7\u00e3o vertical em sede de pris\u00e3o flagrancial, em vista do \u2018standard\u2019\u00a0probat\u00f3rio e\/ou de elemento informativo na pris\u00e3o flagrancial Introdu\u00e7\u00e3o Todo poder implica responsabilidade.\u00a0Nesse norte, o Delegado de Pol\u00edcia \u00e9 instado, na solu\u00e7\u00e3o de casos penais apresentados, a decidir sobre a autua\u00e7\u00e3o em flagrante delito de pessoas conduzidas, ordinariamente por agentes 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Colunista do site Justi\u00e7a e Pol\u00edcia, coautor de obras jur\u00eddicas, autor de artigos jur\u00eddicos, integrante da KDJ Mentoria, palestrante e professor de cursos preparat\u00f3rios para concursos p\u00fablicos. E-mail: juniorleitaoadv@hotmail.com. ____________________________________________________________________ Delegado de Pol\u00edcia no estado do Paran\u00e1 desde o ano 2009. Ex-Delegado de Pol\u00edcia Civil do estado de S\u00e3o Paulo (aprovado em primeiro lugar). 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