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Tráfico sexual e moralidade seletiva: o posicionamento hierárquico de gênero na exploração

  • Foto de David Pimentel Barbosa De Siena Por David Pimentel Barbosa De Siena
  • 07/10/2026

Desde Sykes e Matza, uma parte importante da tradição sociológica do desvio procura compreender de que modo autores de delitos conciliam suas condutas com valores que continuam a reconhecer. Essa perspectiva afastou a imagem simplificadora do infrator situado em um universo moral inteiramente apartado daquele compartilhado pelo restante da sociedade. Pessoas que praticam crimes mantêm vínculos afetivos, formulam juízos sobre o certo e o errado, reivindicam respeito, demonstram lealdade e constroem narrativas capazes de preservar uma imagem aceitável de si mesmas. A transgressão pode, assim, conviver com formas ordinárias de moralidade.

O estudo publicado recentemente por Ludmila Bogdan no The British Journal of Criminology acrescenta uma dimensão particularmente fértil a esse problema. A partir de pesquisa etnográfica e de 24 entrevistas em profundidade com homens condenados por tráfico sexual na Romênia e na Moldávia, a autora examina como exploração econômica, violência, intimidade e masculinidade se combinam nas narrativas dos condenados. Em seus relatos, aparecem referências à condição de provedor, à responsabilidade familiar, à proteção de determinadas mulheres e à capacidade de exercer controle sobre outras (Bogdan, 2026).

O ponto central está na maneira pela qual esses homens distribuem obrigações morais. Algumas mulheres são situadas em posições associadas ao cuidado, à proteção e ao respeito; outras ocupam lugares nos quais controle, apropriação econômica e violência ganham maior legitimidade. Bogdan denomina esse mecanismo de gendered hierarchical positioning, expressão que pode ser traduzida como posicionamento hierárquico de gênero. Trata-se de uma ordenação relacional que atribui a homens e mulheres posições distintas, acompanhadas de diferentes expectativas de proteção, lealdade, autoridade e submissão.

A contribuição do conceito está em deslocar o foco da justificativa individual para a estrutura moral das relações. O explorador sexual pode condenar determinadas formas de violência, valorizar a família, apresentar-se como responsável e, ao mesmo tempo, explorar mulheres situadas em outra categoria moral. A questão passa a ser menos a ausência de valores e mais o alcance seletivo desses valores.

Sykes e Matza (1957) formularam uma das explicações clássicas para esse tipo de compatibilização ao desenvolverem a teoria das técnicas de neutralização. A prática delitiva torna-se possível mediante recursos discursivos que suspendem momentaneamente a força das normas convencionais. A negação da responsabilidade, a minimização do dano, a negação da vítima, a condenação dos condenadores e o apelo a lealdades superiores permitem preservar vínculos com uma ordem normativa que, em outras circunstâncias, o próprio infrator reconhece.

A análise de Bogdan sugere um passo adicional. Em diversos relatos, a questão antecede a neutralização da conduta. A vítima já foi colocada em uma posição que define quais obrigações lhe são devidas. A mulher percebida como esposa, companheira ou integrante legítima do círculo familiar recebe determinado tipo de consideração; aquela associada à prostituição ou à exploração comercial ocupa outra posição. A hierarquia contribui para organizar aquilo que o agente considera admissível em cada relação.

Bandura (1999), ao examinar os mecanismos de desligamento moral, mostrou como práticas lesivas podem ser reorganizadas cognitivamente por meio da minimização das consequências, do deslocamento da responsabilidade, da comparação vantajosa, da desumanização e da atribuição de culpa às vítimas. Esses mecanismos ajudam a compreender a preservação da autoestima diante de ações que produzem sofrimento. O trabalho de Bogdan acrescenta uma dimensão relacional a essa discussão: o valor moral da vítima já chega à interação marcado por hierarquias de gênero.

A comparação entre homens ocupa posição importante nesse processo. Alguns entrevistados constroem sua imagem moral por contraste com exploradores percebidos como mais violentos, descontrolados ou cruéis. A referência ao “pior” cumpre uma função decisiva. A própria conduta parece moderada diante de outra considerada extrema. O parâmetro moral desloca-se da ausência de exploração para a forma considerada aceitável de exercê-la.

Essa operação guarda afinidade com a comparação vantajosa descrita por Bandura (1999), mas o estudo de Bogdan permite situá-la dentro da construção social das masculinidades. O homem respeitável aparece como aquele que controla a violência, provê recursos, mantém autoridade e estabelece limites. Sua respeitabilidade surge em relação a outros homens e também em relação às mulheres submetidas à sua autoridade.

Messerschmidt (1993) já havia demonstrado a importância de compreender o crime como prática situada dentro das relações de gênero. A masculinidade é produzida em contextos concretos e por meio de práticas sociais. Em determinados ambientes, autoridade, capacidade de prover, domínio econômico e controle sobre outras pessoas podem funcionar como recursos para a produção de uma identidade masculina reconhecível.

Connell e Messerschmidt (2005), ao revisarem o conceito de masculinidade hegemônica, reforçaram essa dimensão relacional. Formas de masculinidade são construídas em referência às mulheres e também a outras masculinidades. Hierarquias entre homens coexistem com hierarquias de gênero. O estudo de Bogdan evidencia esse processo entre condenados por tráfico sexual: a posição do homem como provedor, protetor ou chefe ganha significado dentro de relações marcadas por desigualdade econômica e controle sobre mulheres.

A figura do provedor merece atenção particular. A capacidade de prover recursos possui grande valor simbólico em muitas formas de masculinidade. O dinheiro obtido com a exploração sexual pode ser posteriormente apresentado como sinal de responsabilidade familiar, competência ou sucesso. A origem econômica dos recursos perde centralidade na narrativa, enquanto a capacidade de sustentar pessoas próximas ganha relevo moral.

Algo semelhante ocorre com a ideia de proteção. Proteger alguém envolve cuidado, mas também pode implicar autoridade para definir riscos, estabelecer limites e controlar comportamentos. Em relações profundamente assimétricas, proteção e domínio podem compartilhar a mesma linguagem. O homem que se considera responsável pela segurança de uma mulher pode reivindicar poder sobre seus deslocamentos, vínculos sociais e decisões.

Essa combinação possui longa história nas relações de gênero. O paternalismo tradicional associa frequentemente proteção masculina à obediência feminina. A mulher é valorizada enquanto ocupa determinada posição dentro da ordem relacional, e o respeito aparece condicionado ao cumprimento de expectativas específicas. Bogdan encontra elementos dessa lógica nas narrativas de homens condenados por exploração sexual.

O conceito de posicionamento hierárquico de gênero permite, portanto, observar o tráfico sexual como uma pequena ordem social. Existem posições, expectativas, distribuições de autoridade e critérios de pertencimento. A exploração ocorre dentro de relações dotadas de significado. Homens e mulheres ocupam lugares distintos, e esses lugares condicionam aquilo que cada pessoa pode exigir, receber ou sofrer.

Esse enfoque amplia a compreensão de um fenômeno muitas vezes examinado sobretudo pela racionalidade econômica. O tráfico sexual envolve lucro, oportunidades criminais, redes de recrutamento, vulnerabilidades sociais e mercados ilícitos. Esses fatores continuam centrais. As relações que sustentam a exploração, contudo, também dependem das classificações morais utilizadas pelos próprios agentes.

As narrativas dos condenados possuem especial relevância nesse ponto. Relatos produzidos em ambiente prisional carregam interesses de autopreservação, reconstrução da trajetória e administração da identidade. Ainda assim, revelam a gramática moral mobilizada pelos agentes. As justificativas escolhidas mostram quais valores parecem suficientemente legítimos para sustentar uma imagem aceitável diante dos outros.

A criminologia narrativa tem chamado atenção para essa dimensão da experiência criminal. Histórias contadas pelos autores organizam identidades, reconstruem responsabilidades e atribuem sentido às condutas. O interesse analítico reside na estrutura dessas narrativas: quem recebe culpa, quem aparece como vítima legítima, quais formas de violência são reconhecidas como excessivas e quais permanecem integradas ao cotidiano.

Nos relatos analisados por Bogdan, a condição da vítima influencia decisivamente essa distribuição. Uma mulher associada a determinadas categorias sociais pode ter seu sofrimento reinterpretado como consequência de escolhas próprias. O mecanismo aproxima-se da negação da vítima descrita por Sykes e Matza (1957), agora estruturada por relações de gênero.

Esse aspecto permite aproximar o estudo de Bogdan de debates mais amplos sobre violência contra mulheres. A legitimação de diferentes formas de violência depende, muitas vezes, da construção social da vítima. A mulher considerada respeitável, inocente ou pertencente ao círculo familiar recebe uma forma de reconhecimento; aquela associada à sexualidade considerada desviada, à prostituição ou à marginalidade pode ser submetida a avaliações morais distintas.

A seletividade moral aparece, assim, como componente da própria estrutura da violência. A possibilidade de causar sofrimento depende também da redução simbólica da posição daquele que sofre. O processo pode assumir formas explícitas de desumanização ou operar por distinções socialmente normalizadas entre pessoas consideradas dignas de proteção e pessoas colocadas em posições inferiores.

O estudo de Bogdan mostra que essas distinções convivem com identidades masculinas convencionalmente valorizadas. Um homem pode desejar ser reconhecido como pai responsável, companheiro leal ou provedor competente. A exploração de mulheres ocupa outra esfera de sua identidade e recebe justificativas próprias. O resultado é uma moralidade segmentada, capaz de sustentar diferentes padrões de comportamento conforme a relação em questão.

A imagem pública do criminoso costuma simplificar esse universo. O autor de violência aparece frequentemente representado como alguém destituído de valores, empatia ou vínculos. Essa figura oferece pouca capacidade explicativa. Os homens entrevistados por Bogdan recorrem a valores bastante reconhecíveis: família, respeito, proteção, trabalho, responsabilidade e lealdade. O interesse está na forma como esses valores são hierarquizados e distribuídos.

Há consequências importantes para programas de prevenção e intervenção com autores de violência. Trabalhar apenas com o reconhecimento abstrato do dano pode produzir resultados limitados diante de sistemas classificatórios que já colocam determinadas vítimas em posição inferior. A responsabilização precisa alcançar as categorias pelas quais o agente distribui dignidade, respeito e proteção.

Isso exige examinar formas de masculinidade, relações afetivas, concepções de provisão econômica e sentidos atribuídos ao controle. A violência ocupa um lugar dentro dessas estruturas, e sua transformação passa também pela revisão das classificações que lhe conferem legitimidade.

A contribuição de Bogdan reside precisamente nessa mudança de perspectiva. O tráfico sexual aparece como prática econômica e criminal, mas também como ordem moral. Seus participantes atribuem posições uns aos outros, estabelecem diferenças entre mulheres e constroem hierarquias entre homens. O poder circula por essas classificações.

O alcance do estudo ultrapassa o próprio tráfico sexual. Muitas formas de violência dependem da construção de fronteiras morais semelhantes. O sofrimento torna-se mais tolerável quando dirigido à pessoa colocada em posição inferior. A hierarquia prepara o terreno para o dano.

A questão decisiva passa a ser, então, a extensão do círculo moral reconhecido pelo agente.

A moral dos exploradores existe. Sua seletividade explica muito sobre aqueles que permanecem fora dela.

Referências

BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review, v. 3, n. 3, p. 193-209, 1999. DOI: 10.1207/S15327957PSPR0303_3.

BOGDAN, Ludmila. The gendered organization of exploitation: sex trafficking and masculinity. The British Journal of Criminology, 2026. Publicado online em: 20 set. 2026. DOI: 10.1093/bjc/azag070.

CONNELL, R. W.; MESSERSCHMIDT, James W. Hegemonic masculinity: rethinking the concept. Gender & Society, v. 19, n. 6, p. 829-859, 2005. DOI: 10.1177/0891243205278639.

MATZA, David. Delinquency and drift. New York: Wiley, 1964.

MESSERSCHMIDT, James W. Masculinities and crime: critique and reconceptualization of theory. Lanham: Rowman & Littlefield, 1993. SYKES, Gresham M.; MATZA, David. Techniques of neutralization: a theory of delinquency. American Sociological Review, v. 22, n. 6, p. 664-670, 1957. DOI: 10.2307/2089195.

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